Como calcular o salário líquido (CLT)
Atualizado em 18 de junho de 2026 · por Rafael Rossi
Entre o salário que está na carteira e o valor que cai na conta existem dois descontos obrigatórios — INSS e Imposto de Renda — e um número variável de descontos opcionais que ninguém explica no dia da contratação. Este guia mostra a conta completa, com as tabelas de 2026, e ensina a ler o holerite linha a linha.
A ordem correta da conta
A sequência importa, porque cada etapa usa o resultado da anterior:
- INSS incide sobre o salário bruto, por faixas progressivas, com teto.
- IRRF incide sobre o bruto menos o INSS (e menos dependentes, ou usando o desconto simplificado — o que for melhor para você).
- Descontos contratuais (vale-transporte, plano de saúde, coparticipações) saem depois, e não reduzem imposto.
líquido = bruto − INSS − IRRF − descontos contratuais
Tabela do INSS 2026
| Faixa do salário | Alíquota |
|---|---|
| até R$ 1.621,00 | 7,5% |
| de R$ 1.621,01 a R$ 2.902,84 | 9% |
| de R$ 2.902,85 a R$ 4.354,27 | 12% |
| de R$ 4.354,28 a R$ 8.475,55 | 14% |
A tabela é progressiva: cada alíquota incide só sobre a fatia que cai dentro daquela faixa, nunca sobre o salário inteiro. E há um teto: acima de R$ 8.475,55 o desconto para de crescer, travando em R$ 988,09. Quem ganha R$ 12.000 paga os mesmos R$ 988,09 de quem ganha R$ 8.475,55.
Tabela do IRRF 2026 e o redutor
| Base de cálculo | Alíquota | Parcela a deduzir |
|---|---|---|
| até R$ 2.428,80 | isento | — |
| até R$ 2.826,65 | 7,5% | R$ 182,16 |
| até R$ 3.751,05 | 15% | R$ 394,16 |
| até R$ 4.664,68 | 22,5% | R$ 675,49 |
| acima disso | 27,5% | R$ 908,73 |
Sobre o imposto da tabela aplica-se ainda o redutor da Lei 15.270/2025, calculado sobre o salário bruto:
redutor = R$ 978,62 − 0,133145 × salário bruto
Ele zera o imposto até R$ 5.000 de salário bruto e desaparece por completo acima de R$ 7.350.
Exemplo passo a passo: R$ 6.000
- INSS, faixa a faixa: 7,5% sobre 1.621,00 = R$ 121,57; 9% sobre 1.281,84 = R$ 115,37; 12% sobre 1.451,43 = R$ 174,17; 14% sobre 1.645,73 = R$ 230,40. Total: R$ 641,51.
- Base do IR: existem dois caminhos, e vale o que resultar na menor base. Pelo desconto completo: 6.000 − 641,51 de INSS = R$ 5.358,49. Pelo desconto simplificado: 6.000 − 607,20 = R$ 5.392,80. Como o INSS descontado é maior que os R$ 607,20 do simplificado, o caminho completo entrega a base menor — e é ele que vale: R$ 5.358,49.
- Imposto da tabela: 5.358,49 × 27,5% − 908,73 = R$ 564,85.
- Redutor: 978,62 − 0,133145 × 6.000 = R$ 179,75.
- IRRF: 564,85 − 179,75 = R$ 385,10.
- Líquido: 6.000 − 641,51 − 385,10 = R$ 4.973,38.
A faixa onde ganhar mais rende pouco
O redutor some à razão de 13,3 centavos por real de aumento no bruto. Somado ao INSS e ao IRRF, isso cria uma faixa com alíquota marginal alta:
| Salário | De cada R$ 100 de aumento, sobram |
|---|---|
| R$ 3.000 | R$ 88,00 |
| R$ 4.500 | R$ 86,00 |
| R$ 5.500 | R$ 45,19 |
| R$ 7.000 | R$ 49,04 |
| R$ 8.500 | R$ 72,50 |
| R$ 12.000 | R$ 72,50 |
Entre R$ 5.000 e R$ 7.350, a alíquota marginal efetiva passa de 50% — mais alta do que a de quem ganha R$ 12.000. É consequência direta de o redutor ser retirado gradualmente nessa faixa.
Atenção: isso não significa que ganhar mais deixa você com menos. O líquido sempre sobe; ele só sobe devagar nessa faixa. Aumentar o bruto nunca reduz o líquido.
O resto do holerite
Depois dos dois descontos legais vêm os contratuais, que variam por empresa:
- Vale-transporte: a empresa pode descontar até 6% do salário base. Em R$ 4.000, são R$ 240 — mais que o IRRF de muita gente nessa faixa.
- Plano de saúde e odontológico: mensalidade e coparticipação por consulta ou exame.
- Vale-refeição/alimentação: costuma ter cota do funcionário, entre 1% e 20% do valor.
- Adiantamento (vale): não é desconto novo, é a parcela que você já recebeu.
- Pensão alimentícia e empréstimo consignado, quando houver.
Um salário de R$ 4.000 com vale-transporte, plano de saúde de R$ 180 e R$ 90 de coparticipação sai de R$ 3.631,40 (só com os descontos legais) para R$ 3.121,40 na conta.
13º e férias não entram no mês
Esta é a parte que mais gera dúvida — e uma boa notícia. O 13º salário é tributado separadamente, de forma exclusiva na fonte: ele não se soma ao salário do mês para efeito de imposto.
Se fosse somado, o efeito seria brutal. Para quem ganha R$ 4.000, receber salário e 13º juntos como R$ 8.000 num mês resultaria em R$ 6.040,63 líquidos. Tributados separadamente, os dois somam R$ 7.262,80 — uma diferença de R$ 1.222,17 a favor do trabalhador.
As férias seguem lógica própria: o terço constitucional integra a base do IR, e o abono pecuniário (a venda de até 10 dias) é isento de INSS e de IR.
Perguntas frequentes
Compensa declarar dependentes? Só quando o desconto por dependentes (R$ 189,59 cada) supera o desconto simplificado de R$ 607,20 — ou seja, a partir de quatro dependentes. A folha calcula automaticamente a opção mais vantajosa, mas vale conferir se os dependentes estão cadastrados.
Por que o desconto do INSS do meu colega é proporcionalmente menor? Porque acima do teto a alíquota efetiva cai. Quem ganha R$ 8.475,55 paga 11,66% de INSS; quem ganha R$ 20.000 paga os mesmos R$ 988,09, ou 4,94%.
Contribuir acima do teto aumenta minha aposentadoria? Não pelo INSS: o teto de contribuição é também o teto do benefício. Quem quer renda maior na aposentadoria precisa complementar por conta própria.
O líquido do holerite é o mesmo que cai na conta? Deveria ser. Se houver diferença, confira o adiantamento quinzenal e eventuais descontos lançados fora da folha. Guardar os holerites é a única forma de conferir o FGTS e o tempo de contribuição depois.
Fontes: tabelas de INSS e IRRF vigentes em 2026, incluindo o redutor da Lei 15.270/2025 e a IN RFB 2299/2025. Conteúdo informativo — situações específicas (acordos coletivos, adicionais, pensão) exigem conferência com o RH ou com um contador.