Energia cinética e potencial: as fórmulas
Atualizado em 30 de junho de 2026 · por Rafael Rossi
Energia cinética é a energia do movimento; energia potencial gravitacional é a energia da posição. Juntas, elas explicam por que um carro a 100 km/h é quatro vezes mais perigoso que um a 50 — e não duas.
As duas fórmulas
Energia cinética: Ec = m·v² ÷ 2
Energia potencial gravitacional: Ep = m·g·h
Onde m é a massa em kg, v a velocidade em m/s, h a altura em metros e g ≈ 9,8 m/s². O resultado sai em joules (J).
Repare na assimetria: na energia potencial, tudo entra linearmente — dobrar a altura dobra a energia. Na cinética, a velocidade está ao quadrado. É a diferença mais importante da física do dia a dia.
Exemplo passo a passo
Um carro de 1.000 kg a 50 km/h:
- Converta para m/s: 50 ÷ 3,6 = 13,89 m/s
- Ec = 1.000 × 13,89² ÷ 2 = 1.000 × 192,9 ÷ 2 = 96.451 J
Agora o mesmo carro a 100 km/h: v = 27,78 m/s, e Ec = 385.802 J. Dobrar a velocidade quadruplicou a energia.
A tradução que muda a percepção de risco
Um número em joules não diz nada para a maioria das pessoas. Mas a energia cinética pode ser convertida em uma altura de queda equivalente — a altura da qual o carro precisaria cair para chegar ao chão com aquela mesma energia:
altura equivalente = v² ÷ (2g)
| Velocidade | Energia (1.000 kg) | Equivale a cair de |
|---|---|---|
| 30 km/h | 34.722 J | 3,5 m — 1º andar |
| 50 km/h | 96.451 J | 9,8 m — 3º andar |
| 60 km/h | 138.889 J | 14,2 m — 5º andar |
| 100 km/h | 385.802 J | 39,4 m — 13º andar |
| 120 km/h | 555.556 J | 56,7 m — 19º andar |
Bater a 60 km/h contra um obstáculo fixo é o equivalente energético de jogar o carro do quinto andar. A 120, do décimo nono. Aumentar de 100 para 120 km/h — 20% a mais de velocidade — acrescenta 44% de energia, e é essa energia que a estrutura do veículo e o corpo dos ocupantes precisam absorver.
A conversão entre as duas
Energia não some, se transforma. Um objeto largado de uma altura h começa com Ep = mgh e nenhuma Ec; ao chegar ao chão, tem Ec = mv² / 2 e nenhuma Ep. Igualando as duas:
m·g·h = m·v² ÷ 2 → v = √(2gh)
Repare no que desaparece na simplificação: a massa. É por isso que, desprezando o ar, uma pena e um martelo caem juntos — a energia potencial maior do martelo é exatamente compensada pela inércia maior que ele precisa vencer.
Onde a conta aparece fora da prova
- Distância de frenagem. Freios dissipam energia cinética. Como ela cresce com o quadrado da velocidade, a distância de frenagem também: dobrar a velocidade quadruplica o espaço necessário para parar — sem contar o tempo de reação, que cresce linearmente.
- Altura de queda em obra. Normas de trabalho em altura partem justamente dessa relação; a energia de impacto de uma ferramenta que cai cresce com a altura.
- Usinas hidrelétricas. Toda a operação é conversão de Ep em Ec e daí em elétrica: a energia disponível é proporcional à vazão e à altura de queda d'água.
Energia não é a mesma coisa que momento
Existe uma segunda grandeza do movimento que costuma ser confundida com energia: o momento linear, ou quantidade de movimento, dado por p = m·v. Aqui a velocidade entra linearmente, e a massa pesa tanto quanto ela.
A diferença tem consequência prática. Um caminhão de 20 toneladas a 30 km/h tem vinte vezes o momento de um carro de 1 tonelada na mesma velocidade, mas também vinte vezes a energia. Já um carro a 120 km/h tem apenas quatro vezes o momento de um a 30 km/h — e dezesseis vezes a energia.
Momento explica quem empurra quem numa colisão; energia explica quanto o material se deforma. É por isso que velocidade é o fator dominante em gravidade de acidente, e massa é o fator dominante em quem sai melhor da batida.
Perguntas frequentes
Por que a velocidade está ao quadrado e a altura não? Porque a energia cinética resulta do trabalho realizado por uma força durante uma aceleração, e o espaço percorrido nessa aceleração já cresce com o tempo — o quadrado aparece na integração. A intuição não acompanha, mas a consequência prática é medível em qualquer teste de colisão.
De onde vem o "÷ 2" na fórmula? Do mesmo lugar: durante uma aceleração constante do repouso, a velocidade média é metade da velocidade final. O fator 2 é essa média.
A energia potencial pode ser negativa? Pode, e não há problema: ela é sempre medida em relação a um referencial escolhido. Se você marcar o zero no nível da rua, um objeto no subsolo terá Ep negativa. Só as diferenças de energia têm significado físico.
Qual a energia de um carro a 100 km/h em termos comparáveis? Os 385.802 J de um carro de 1.000 kg equivalem a cerca de 92 quilocalorias — a energia de meia barra de cereal. Isso mostra outra coisa incômoda: alimentos são densíssimos em energia, e o corpo humano é muito frágil para absorvê-la de uma vez.