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Juros simples vs juros compostos

Atualizado em 18 de junho de 2026 · por Rafael Rossi

A diferença entre juros simples e compostos cabe em uma frase: nos simples, os juros incidem sempre sobre o valor inicial; nos compostos, incidem sobre o saldo atual. Parece uma distinção acadêmica. Em vinte anos, ela multiplica o resultado por três.

As duas fórmulas

Juros simples: M = C × (1 + i × n)

Juros compostos: M = C × (1 + i)n

Onde C é o capital, i a taxa por período e n o número de períodos. A única diferença visível é onde está o n: multiplicando ou no expoente. É essa mudança de posição que transforma uma reta numa curva.

A comparação, em números

R$ 10.000 aplicados a 1% ao mês, nos dois regimes:

PrazoJuros simplesJuros compostosDiferença
1 mêsR$ 10.100R$ 10.100R$ 0
6 mesesR$ 10.600R$ 10.615R$ 15
1 anoR$ 11.200R$ 11.268R$ 68
2 anosR$ 12.400R$ 12.697R$ 297
5 anosR$ 16.000R$ 18.167R$ 2.167
10 anosR$ 22.000R$ 33.004R$ 11.004
20 anosR$ 34.000R$ 108.926R$ 74.926

Três leituras importantes dessa tabela:

  • No primeiro período, os dois regimes dão exatamente o mesmo valor. Não há juros acumulados sobre os quais compor. É por isso que, para prazos curtíssimos, a discussão é irrelevante.
  • Em um ano, a diferença é de 0,6%. Quase invisível — e é justamente por isso que a intuição das pessoas foi treinada errado: no dia a dia, os dois regimes se parecem.
  • Em vinte anos, o composto entrega 3,2 vezes o simples. Mesmo capital, mesma taxa, mesmo prazo.

O tempo até dobrar

Outra forma de ver a diferença: a 1% ao mês, o capital sob juros simples leva exatamente 100 meses para dobrar (porque 100 × 1% = 100%). Sob juros compostos, leva 70 meses — dois anos e meio a menos, sem mudar nada além do regime.

E, ao contrário do regime simples, o composto dobra de novo a cada 70 meses. O simples precisaria de mais 200 meses para quadruplicar; o composto precisa de 140.

Onde cada um aparece na vida real

No Brasil, a divisão é razoavelmente clara:

  • Juros compostos: praticamente tudo o que envolve prazo. Financiamento imobiliário e de veículo (Price e SAC), cartão de crédito, cheque especial, empréstimo pessoal, CDB, Tesouro Direto, poupança, fundos.
  • Juros simples: aparecem sobretudo em juros de mora — o 1% ao mês previsto no Código Civil para atraso de pagamento —, em multas contratuais e em alguns títulos de prazo muito curto.

A regra prática: quase todo produto financeiro que você contrata usa juros compostos. Quando alguém apresenta um empréstimo com "juros de 2% ao mês" e mostra uma parcela fixa, o cálculo por trás é composto — a parcela fixa é a fórmula Price, não uma divisão simples.

Cuidado com o teste da multiplicação

É tentador conferir um empréstimo multiplicando a taxa pelo número de parcelas. Não funciona, e erra para o lado que engana.

Um empréstimo de R$ 10.000 a 2% ao mês em 24 parcelas: a multiplicação ingênua sugere 2% × 24 = 48%, ou R$ 4.800 de juros. O valor real, pela tabela Price, é R$ 2.689 — parcela de R$ 528,71, total de R$ 12.689.

Por que menos? Porque você não deve os R$ 10.000 durante os 24 meses. Cada parcela amortiza uma parte, e os juros do mês seguinte incidem sobre um saldo menor. A multiplicação só valeria se você não pagasse nada até o fim — e aí, no regime composto, a dívida seria de R$ 16.084, não de R$ 14.800.

A moral é dupla: a conta de cabeça superestima o custo de um empréstimo parcelado e subestima o de uma dívida que rola sem pagamento. As duas distorções puxam a intuição na direção errada.

O número que resolve: o CET

Para comparar propostas, esqueça a taxa anunciada e olhe o Custo Efetivo Total, que as instituições financeiras são obrigadas a informar. Ele embute juros, tarifas, seguros, IOF e a estrutura de amortização num único percentual — é o único número que permite comparar duas ofertas de forma honesta, e frequentemente revela que a proposta de menor taxa não é a mais barata.

Perguntas frequentes

Juros compostos são ilegais no Brasil? Não. A cobrança de juros sobre juros (anatocismo) é vedada em algumas situações civis, mas o Superior Tribunal de Justiça consolidou que instituições financeiras podem capitalizar juros em periodicidade inferior à anual desde que isso esteja expressamente pactuado no contrato — o que, na prática, ocorre em quase todos eles.

A poupança rende juros simples ou compostos? Compostos. O rendimento é creditado mensalmente na data de aniversário e passa a fazer parte do saldo, rendendo no mês seguinte.

Qual regime é melhor para quem investe? Composto, sem discussão. Para quem deve, é o contrário: dívida em regime composto cresce sozinha, e quanto maior a taxa, mais rápido.

Por que ainda se ensina juros simples na escola? Porque é a base conceitual e porque continua valendo em situações reais de curto prazo, como mora e multa. Mas é preciso deixar claro que ele é a exceção, não a regra — o ensino que para nos juros simples deixa o aluno mal preparado para o contrato que ele vai assinar.

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